o que sobra é sempre a palavra porque o silêncio prescinde dela quando se cala ou o que sobra é sempre a palavra porque ela própria é ausência impermanente que dança com o vento um movimento sem pressa ou furioso não importa a palavra soprada ao vento ou ao ouvido lida ou escrita intempestivamente é sempre a palavra que revolve uma coisa e outra perdida nesta fratura do tempo

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Observo daqui de dentro uma roseira, pequena e solitária, que insiste em brotar. Reconto, no meu silêncio, o tempo das flores. A roseira resiste ao calor, suporta o frio, e não descansa com o vento impiedoso deste lugar. Às vezes, parideira, floresce em mil pétalas numa manhã de primavera amena. Hoje não, porque a brutalidade desta ventania só lhe deixa viver em botão. Olho de novo, e brindado por um raio de sol, aquele botão, filho dileto, tenta vencer a hostilidade da estação, se abrindo, pequenino, para tudo que está por vir. Como a flor que brota no asfalto, a roseira deixa-se ver pela a cor da pequena rosa que insiste em brotar.

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A ideia incontestável e o desejo de aniquilação do outro é a trapaça do sentido da palavra. Talvez, porque se quer calar o horror que é ver-se tão de perto, lá onde as aparências já não conseguem esconder este demônio que também nos habita. Tripudia-se de uma moralidade para se estabelecer tão violentamente moralista em outra. 
 
Somos um eu cada vez mais solitário ou, mesmo que sejamos um nós, nada além de um conjunto encerrado em si mesmo que absolutiza verdades: uma vaidade que não nos leva a lugar nenhum. Assim como doer-se de si mesmo, enraivecer-se, culpar o mundo e se vitimizar é um processo inescapável, mas inútil se não seguimos em frente.
 
Quem sabe estejamos aqui para suportar o que perdemos e nos reinventarmos na aproximação, na singeleza das coisas que não podemos tocar, mas podemos dizer. E sem ter o que perder, se permitir a um aprendizado lento e incompleto, até que seja possível recuperar uma faísca embandeirada, um deleite inteligível para transformar tudo aquilo que arranca de nós a humanidade.
 
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Aflorar-se em girassóis na virtude do dia, e deixar-se ir como a poeira cintilante iluminada pelo sol da manhã. Um lar pantanoso ou jardim, leito caudaloso em que o corpo se entrega sem pena de si. Assumir-se como fenda por onde brota o desejo, a inveja e a flor. Deixar-se ver à luz de toda a ausência, crua como a falta daquilo que se desconhece. Entregar-se à simplicidade e ao original e, enfim, aceitar-se como um ente que sabe apenas que chora e ri. Ser não mais que um sopro de vida que dança na sutura do tempo. Completar-se no que está por vir.

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