há duas ou três semanas, comecei a retomar um lugar na rua. sempre fui dali. a praia, o carnaval, o protesto, o boteco, o jornalismo. sou andarilha e gosto de gente. viver trancafiada nunca foi
os dias, todos, podiam ser uma manhã de sábado. sol esfumaçado, gosto de café. meia dúzia de tragadas esverdeadas soprando ideias que esfumaçam ainda mais o amarelo do sol. pelas ruas, canções de
a confusão é generalizada, não bastasse o descostume de viver junto, tudo é mediado; muito ruído interpretado no silêncio da solidão. ninguém sabe mais dizer quem fala ou pensa o quê. as ideias
quando eu morrer, quero que todos chorem e ouçam fado. quero que escureçam a sala e dancem passos a esmo. quero que fumem cigarros e bebam conhaque. quando eu morrer, quero que todos riam de
Por que tudo importa demais? Até uma suposta impressão: nunca o que verdadeiramente é. Como se olhar pelo olho do outro fosse possível. Ou como se fazer sentido mudasse alguma coisa de lugar. Com
combinavam. sabiam tudo de si e até um pouco mais, embora isso sempre seja uma ilusão. os dias de verão cintilavam, era quase impossível reconhecer dois corpos a certa distância. não que não
o silêncio pela casa se movimentava como o vento nas cortinas. nada parecia ter sobrado de pé, era só poeira que a janela aberta deixou entrar durante o vendaval. a solidão era como uma voz
tento me divertir para esquecer que sou triste. essa verdade que tudo se faz para esconder, mas que bem no fundo do olho é capaz de se notar. é um brilho difuso que ilumina para fora enquanto
as palavras vacilam na boca sem o menor compromisso de voltar. cantam, assim, coisas que não querem dizer como se o não não fosse uma forma de negar o desejo. as palavras batem asas na garganta
Escrever tem sido um ato mais introspectivo do que político. Tenho me permitido dar mais importância a uma escrita "molecular". Não que eu tenha sucumbido de vez ao individualismo. Tentar
O azul das águas molda a vermelhidão das rochas. Não se sabe, ao certo, quando tudo começou ou se, uma dia, haverá um fim. Só conhecemos essa harmonia que conecta movimento e solidez: a vida
Escrever tem a ver com aquilo que nos aciona. Pode ser sobre um pequeno movimento que locomove alguma coisa dentro da gente. Ou sobre aquilo que a gente vê, deixa passar despercebido, mas não
Conhecer a si é um processo que requer coragem: permitir abrir as ideias para o desconhecido que nos habita e assumir que, nem sempre, somos aquilo que pensamos ser.
Olhar para dentro não
entender o movimento do corpo orienta o olhar para dentro. abrir a porta do sótão, ouvir o ranger das dobradiças, deixar a luz entrar lentamente, remexer nos
é tempo de apagar do corpo toda a dor, quando o sol ainda aquece o outono e, por todos os lados, cresce a calmaria nos litorais. na enseada, Maria caminha enquanto refaz mentalmente o trajeto dos
era a primeira madrugada do inverno e a noite parecia uma flâmula de fumaça sobrepondo as embarcações.
vagar pela cidade é diferente de caminhar para o trabalho. a sensação também é outra, comparada à da criança que corria pelas ruas colecionando
a base disciplinar da catequese cristã e da cartilha comunista maltrata a cabeça, mas prepara. as profundezas por onde navegam as suas contradições - isoladas ou justapostas - são as mesmas de
a campainha tocou, tive medo. silêncio.
Página 3 de 3